Fala do Silêncio: quando as palavras não dizem tudo

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Leonardo Machado e Priscilla Colombi – Foto: Adriana Marchiori

Fala do Silêncio, da Cia Rústica, é uma daquelas montagens que nos tiram do chão e nos remetem a um lugar qualquer, destes com os quais sonhamos, e onde gostaríamos de permanecer para não retornar à realidade. Em um texto apaixonante, inspirado em Traições (1978), de Harold Pinter (1930 – 2008), Evandro Soldateli (Roberto), Leonardo Machado (Alexandre), e Priscilla Colombi (Lúcia), vivem um triângulo amoroso onde não há lugar para o ódio, tampouco espaço para a vingança.

Com direção e composição dramatúrgica de Patrícia Fagundes, o espetáculo apresenta a história de trás para a frente (2017 a 2006), e leva para o palco três atores maduros e reconhecidos na cena teatral gaúcha, com amplo controle de suas personagens e da cena, prendendo a atenção do espectador do início ao fim. São artistas que, além da naturalidade de suas atuações, indício da maturidade profissional, emprestam para a montagem o domínio de outras linguagens artísticas: Leonardo Machado, também responsável pela trilha sonora (com a colaboração do grupo), mostra-se um bom cantor e guitarrista, e Priscilla Colombi domina a bateria. Ambos demonstram familiaridade com os instrumentos, provavelmente adquirida em anos de estudos e prática.

Essa inserção da música ao vivo na dramaturgia ajuda a tornar o espetáculo ainda mais interessante. Nada do que já não tenha sido feito antes, mas neste caso com o diferencial de ser levado à perfeição. É essa harmonia entre linguagens que “pega” o espectador, que é desafiado não só a ouvir a trilha sonora e o texto, mas principalmente o que é dito pelos silêncios que entremeiam as músicas e os diálogos. Tudo perfeitamente costurado de forma a oferecer uma narrativa poética que faz com que o espectador sinta-se próximo dos personagens, porque enxerga a possibilidade de ver retratadas suas próprias histórias no palco, ou pelo menos as de alguém que conheça, porque tudo ali é humano e real.

“Se, ao construir realidades poéticas, a fala do ator objetiva criar laços, configurar relações, testemunhar acontecimentos, desencadear experiências em seus espectadores, como não considerar, então, um treinamento que privilegie e atue sobre sua vontade, sobre suas responsabilidades, sobre as dinâmicas corpo/sonoras que se constituem no presente da ação, sobre sua qualidade de presença, sobre o equacionamento das relações e das estruturas de poder tão fortemente expressas na fala?” (SETTI, 2007, p. 29)

Fala do Silêncio mostra que para além das falas, das palavras verbalizadas, há uma infinidade de silêncios acontecendo no agora, e “o silêncio abraça as palavras e os sons”, declara um dos personagens. É nestes pequenos momentos do espetáculo, em que musicalidade e texto dão lugar a breves silêncios, que encontramos aberta a porta para nos deparar com outras linguagens, como a de corpos que falam quando a ausência das palavras deixa-lhes uma brecha. Ali, no contato com estes outros que poderiam ser qualquer um de nós, nas suas vozes, nos seus gestos, nas suas histórias, temos a chance de ressignificar, de repontencializar, de ampliar o leque de nossa sensorialidade, tal como nos diz José Eugênio de O. Menezes (2008, p. 117):

“Na cultura do ouvir somos desafiados a repotencializar a capacidade de vibração do corpo diante dos corpos dos outros, ampliar o leque da sensorialidade para além da visão. Ir além da racionalidade que tudo quer ver, para adentrar numa situação onde todo o corpo possa ser tocado pelas ondas de outros corpos, pelas palavras que reverberam, pela canção que excita, pelas vozes que vão além dos lugares comuns e tautologias midiáticas.”

Roberto (Evandro Soldateli) e Lúcia (Priscila Colombi) são marido e mulher. Alexandre (Leonardo Machado), melhor amigo de Roberto, torna-se amante de Lúcia. Alexandre é casado com Juliana (personagem presente no texto mas ausente da cena), que, descobrimos mais tarde, também o trai. Alexandre e Roberto são dois bem sucedidos editores de livros.

Naquele que parece ser o último encontro entre Alexandre e Lúcia, em 2017, quando ambos já não estão mais juntos (encontro que serve para relembrarem os melhores momentos da relação e também para pequenas alfinetadas e cobranças), ela diz ao agora ex-amante que na noite anterior contara à Roberto que manteve um relacionamento extraconjugal com seu melhor amigo. A esta altura, Roberto e Lúcia já não formam um casal. Também estão separados. Na cena seguinte (posterior a da revelação de Lúcia à Alexandre), quando os amigos se encontram, Roberto confessa que soube da relação da ex-mulher com o amigo há cerca de quatro anos, em viagem à Buenos Aires, e não no dia anterior, como esta lhe dissera.

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Evandro Soldateli e Priscilla Colombi – Foto: Adriana Marchiori

Em seu texto Teatros do Silêncio (2005), Cassiano Sydow Quilici cita Meyerhold, dizendo que este afirmava que “as palavras não dizem tudo”, e que “a verdade das relações humanas está determinada pelos gestos, poses, olhares e silêncios.” A tensão do encontro e a preocupação com os possíveis desdobramentos toma conta de Roberto. Alexandre, o marido traído, alterna indignação com aparente tranquilidade e domínio das emoções. Aqui, o que importa na relação dos amigos, e que confere poesia ao espetáculo, é justamente a reação inesperada de Alexandre, que pega os espectadores de surpresa.

Se há momentos de indignação (que não chega a ser uma fúria) e de ironia da parte do marido traído, que levam o público a antever um desfecho trágico, há muito mais compreensão e afeto. A relação extraconjugal da ex-mulher com o melhor amigo não lhes suplanta a amizade (entre Alexandre e Roberto), e a potência do afeto entre ambos não se expressa em palavras (embora Alexandre tenha dito à mulher, arrancando gargalhadas do público, que talvez gostasse mais do amigo do que dela), mas no silêncio dos gestos e nos olhares que denunciam uma cumplicidade que não só não cessará como permanecerá, prosperará. Tampouco a relação do marido traído com a mulher acaba em tragédia. A naturalidade com que os personagens encaram o desfecho de suas relações não naturaliza a traição. É como se existisse algo superior a tudo isso que os liga e os torna compreensíveis um com o outro para além da compreensão do espectador, este último mais acostumado com os desfechos trágicos que envolvem as histórias de amor e traição.

“Somos feitos de silêncio e histórias”, ouvimos de um deles em determinada circunstância. E é nas histórias apresentadas em silêncio, nas passagens de um ano a outro, que temos acesso a uma narrativa paralela a esta do triângulo amoroso que se apresenta no palco. Mas que silêncios são estes? Entre a passagem decrescente dos anos são projetados vídeos em um painel cenográfico (obra de Alex Ramirez) que pende do teto ao chão no fundo do palco. A escolha e a edição das imagens, feitas por Mauricio Casiraghi, sintetizam os principais acontecimentos de 2017 a 2006: relembram e contextualizam a plateia dos impactantes eventos que entraram para a história e que correm paralelos à história do triângulo amoroso, como que a nos dizer que sempre há mais coisas acontecendo além daquilo que diz respeito ao nosso mundo particular. Imagens de guerras, assassinatos, eleições presidenciais, eventos esportivos, tragédias, conquistas, golpes de estado. São projeções que lembram o espectador e o convidam a refletir sobre as questões atuais: humanitárias, políticas e sociais.

Quando um dos personagens diz que “há uma infinidade de silêncios e histórias acontecendo agora”, ele está querendo nos dizer que para além daquilo que nos acontece em nível pessoal, há uma infinidade de acontecimentos, aos quais permanecemos alheios, que movem o mundo: questões de poder, de amor ou de ódio, de raiva, de intolerância, de censura, de medo, de ideais e de sonhos.

Em A voz nômade de Demetrio Stratos (2000, p. 3), Janete El Haouli diz: “A voz e o corpo não podem ser separados, antes, devem questionar as repressões impostas, cabendo essencialmente aos performers a aplicação de seus impulsos e seus desejos, de seus prazeres e agressões não só à construção de papéis sobre o palco, mas também a atuações na própria vida, desobstruindo os sentidos das pessoas no cotidiano.” E é isso o que Fala do Silêncio propõe, aos atores em cena e ao público, que questionemos as repressões impostas e que delas nos libertemos. Neste sentido, o conjunto da obra deste espetáculo contribui para a desobstrução dos sentidos de quem está na plateia, porque nos impacta, porque não nos deixa esquecer, porque nos remete ao real, nos convida a refletir sobre os silêncios ensurdecedores dos estupros coletivos, da homofobia, do racismo, e porque aponta os descompassos entre nossos pensamentos e nossas atitudes, entre o que buscamos e o que alcançamos, entre o que sonhamos e não realizamos, entre o que fazemos ou deixamos de fazer.

REFERÊNCIAS

MENEZES, José Eugênio de O. Cultura do ouvir: os vínculos sonoros na contemporaneidade. Líbero, São Paulo, ano 11, n. 21, jun. 2008.

EL HOUALI, Janete. A voz nômade de Demetrio Stratos. Revista Pesquisa e Música, Rio de Janeiro, v. 5, n. 1, 2000. p. 3.

QUILICI, Cassiano Sydow. Teatros do silêncio. Revista Sala Preta, São Paulo, n. 5, 2005.

SETTI, Isabel. O corpo da palavra não é fixo: deixa-se tocar pelo tempo e seus espaços. Revista Sala Preta, São Paulo, n. 7, 2007.

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Priscilla Colombi em cena de Fala do Silêncio – Foto: Adriana Marchiori

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